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A KO entrevista o Movimento Alavanca sobre o PREC - parte 4


Entrevista da KO ao Alavanca:



KO - Portugal foi um império colonial cruel até à queda do fascismo. Qual foi a importância das  colônias para o capital português e para as relações sociais no próprio país? Qual foi a relação entre os movimentos de libertação em Angola, Moçambique, Guiné-Bisseau e Cabo Verde e o  movimento antifascista em Portugal? 




Alavanca - Naturalmente, não é por acaso que o Estado fascista português dedicou 13 anos a uma guerra para manter o seu domínio sobre as colónias africanas e acabou por ser derrubado pelo seu exército por causa desta guerra. As colónias em África eram a peça chave da economia dominada por uma série de monopólios capitalistas que sustentavam o regime capitalista que era o Estado fascista português. A economia fascista portuguesa estava estruturada para saquear os recursos naturais das colónias e transformar Portugal em um centro industrial que aproveitava para tirar o máximo lucro deste processo económico. Pode-se dizer que saquear as colónias significa importações baratas de recursos naturais para a metrópole colonizadora, mas o capitalismo do Século XX na sua fase imperialista exigia também exportações como parte das necessidades de internacionalização do Capital, de forma a maximizar os seus lucros. O regime fascista atrasava um pouco a industrialização da agricultura em Portugal mas sobretudo tornava-se cada vez mais isolado na competição económica com as outras potências imperialistas europeias (a França e a República Federal Alemã à cabeça) que já estavam a dar passos para criar um bloco económico sob seu domínio onde as exportações de produtos e de Capital iriam maximizar os lucros dos seus monopólios capitalistas. Dentro do movimento anti-fascista em Portugal apenas o PCP teve um papel político importante na relação com os movimentos de libertação nacional das colónias africanas porque o PCP teve um papel a formar o Partido Comunista de Angola que esteve na origem da criação do MPLA (que foi o movimento de tomou o poder e que tentou criar uma sociedade socialista em Angola). Mas esta ligação do PCP com o MPLA foi suficiente para haver um certo papel do movimento anti-fascista em Portugal a juntar alguns futuros líderes dos movimentos de libertação que foram estudantes em Portugal, como Agostinho Neto, Amílcar Cabral e outros. Em termos de apoio político, militar e económico mais significativo durante a guerra colonial, e também já depois da independência destes países, esse foi dado por Cuba e pela União Soviética aos movimentos de libertação nacional. 




KO - Na Alemanha Ocidental e na RDA houve um grande movimento de solidariedade com a luta  antifascista em Portugal. No entanto, não houve praticamente nenhum debate sobre a estratégia  dos comunistas em Portugal. Qual foi a importância do PREC para o movimento comunista  europeu e para o campo socialista? Qual era a posição da União Soviética e da República Popular da China sob a liderança de Mao Zedong sobre o PREC? 




Alavanca - Da parte de alguns intelectuais burgueses é promovida a tese que o PCP estaria impedido de tomar o poder por ordem da União Soviética. Esta tese é completamente falsa. O PCP tomou as suas próprias decisões e não havia pressões nenhumas para condicionar as suas decisões vindas de fora de Portugal. Não tem sequer cabimento falar em pressões porque a posição da União Soviética era há muito tempo (antes de 1974) uma posição de alheamento face a tentativas de tomar o poder e revoluções levadas a cabo por partidos comunistas em países capitalistas ao redor do mundo, isto era especialmente verdade num país membro da NATO como era Portugal. A China tinha também uma posição de alheamento face a Portugal (e a qualquer país da NATO) mas de maneira ainda pior devido à sua aliança com os Estados Unidos contra a União Soviética desde 1972 (data da visita de Nixon a Mao na China) e ao seu apoio ao regime fascista de Pinochet no Chile desde 1973. Era mais provável em 1974 ver a China a apoiar um regime fascista do que a apoiar uma revolução socialista. Recordamos como a China apoiou em 1975 o movimento reaccionário UNITA em Angola (que alegava ser movimento de libertação nacional) que colaborou com o exército português em luta contra o MPLA durante a guerra colonial e que depois do PREC em Portugal se aliou a uma invasão do exército racista do Apartheid sul-africano (apoiada pelos EUA). É lógico que a colaboração em 1975 entre UNITA, China, África do Sul e Estados Unidos se deu no âmbito da aliança entre Estado Unidos e China anunciada na visita de Nixon a Mao na China em 1972.


A importância do PREC foi mais significativa em países europeus que viviam situações semelhantes e que estavam em vias de sair de regimes fascistas (se bem que também na América Latina e em particular no Brasil) e esses eram a Espanha e a Grécia. O impacto na Espanha e na Grécia foi limitado pela estratégia equivocada por etapas da "revolução democrática" levando à capitulação no momento decisivo para os comunistas tomarem o poder. Mas mesmo assim podemos atribuir ao PREC uma influência importante dentro da ala esquerda do PCE em Espanha que leva às cisões de grupos comunistas que formariam o PCPE em 1984, que hoje se chama PCTE (e é um partido comunista revolucionário muito importante hoje que nós apoiamos). Nos países socialistas a influência do PREC foi escassa. Na realidade, como diz o KKE, desde o XX congresso do PCUS a tendência revisionista no PCUS e os partidos euro-comunistas da Europa ocidental alimentavam o seu revisionismo mutuamente e capitulação na luta pela revolução e a "via pacífica" em Portugal são reflexo dessa influência nefasta (era um problema de alcance internacional). Podemos apenas referir o filme italo-soviético "A vida é maravilhosa" de 1979 ("La vita è bella" em italiano, "Жизнь прекрасна" em russo, romanizado "Zhizn prekrasna") do realizador soviético Grigory Chukhray como um sinal de influência do PREC na sociedade soviética, se bem que este filme retrata a luta anti-fascista em Portugal antes do 25 de Abril de 1974 e não o PREC (se calhar era demasiado revolucionário promover os acontecimentos do PREC...). Neste filme podem-se ver muitos cartazes e murais com os símbolos das forças revolucionárias PCP, PCP(R) e UDP e também as palavras-de-ordem revolucionárias do PREC (socialismo, reforma agrária, nacionalizações, controlo operário, etc), devido às filmagens serem feitas em Lisboa em 1978 ou 1979 (ainda marcada por um certo ambiente da ressaca do PREC).


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