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Alavanca: Sobre a campanha eleitoral em Portugal

Entre as últimas eleições e as eleições de agora assistimos a muitas mudanças de caras que não mudam absolutamente nada na nossa miserável "esquerda" social-democrata parlamentar. Desde 2015, desde a geringonça, a oposição de esquerda ao PS deixou completamente de existir em Portugal. O que significa que deixou de existir qualquer partido que sequer tenha a aparência de propor uma alternativa ao capitalismo. Em termos programáticos na verdade o Bloco de Esquerda nunca foi alternativa ao capitalismo e o PCP da "Democracia Avançada" também nunca foi alternativa ao capitalismo. A absoluta rendição do PCP e do BE ao PS em 2015 não foi mais que o cumprimento dos seus programas reformistas, ou seja a teoria acabou por adequar-se à prática. Os resquícios do passado revolucionário do PCP e da UDP (a única organização fundadora do BE que de facto renunciou ao marxismo-leninismo, já que as outras nunca o foram) morreram definitivamente em 2015.


O que morreu rapidamente nos anos seguintes e nos levou a fundar o Alavanca foi também a possibilidade de luta dos verdadeiros comunistas dentro do PCP e até a esperança que uma cisão comunista revolucionária significativa viesse a acontecer. Do BE as únicas cisões possíveis supostamente "à esquerda", depois de muitos anos de traição absoluta da UDP, foram movimentos trotskistas incapazes (por natureza) de ser mais que pequenas geringonças.


A conclusão mais importante do Alavanca é clara: precisamos de fundar novamente um Partido Comunista verdadeiro e revolucionário em Portugal pois não existe nenhum há muitos anos.


Ousamos dizer que o PCP actual, completamente corrompido até à medula como cão de guarda do PS, é o principal obstáculo para criar um Partido Comunista em Portugal. Um Partido Comunista é a vanguarda revolucionária da classe operária e de todos os trabalhadores e não a tropa de choque da social-democracia do PS como é o PCP.


Por isso o PCP, como um tumor que impede a construção do partido comunista em Portugal e que espalha a sua influência negativa no movimento comunista internacional, para bem dos comunistas e da sua luta revolucionária, deve desaparecer do mapa político. O melhor que podemos fazer como comunistas é continuar a reforçar a tendência desta última década desde a geringonça em que cada eleição burguesa mostra mais um declínio nos votos do PCP. Infelizmente as nossas forças para a reconstrução revolucionária do Partido Comunista em Portugal não nos permitem fazer mais do que reagrupar-nos fora das eleições burguesas e intervir na educação ideológica e luta de massas para formar quadros comunistas no nosso movimento.


Apelamos então a não votar em nenhum dos partidos existentes, porque são todos partidos burgueses, digam-se de esquerda ou de direita. Apelamos aos verdadeiros comunistas e aos operários e trabalhadores em geral a votar nulo.


Sobre as eleições assistimos ao teatro da chamada "esquerda" da burguesia que procura gerir o óbvio sentimento de rejeição do povo em relação ao PS e às promessas (falsas) traídas da geringonça. Nas eleições de 2019 o PCP dava por terminada a geringonça porque em vez de assinar um papel conjunto com o PS assinou um cheque em branco. Em 2022 finalmente o PCP em desespero pela perda de votos que resulta de ser muleta do PS ofereceu a maioria absoluta ao PS com o falso teatrinho de voltar à oposição. Ultimamente o teatro da "superação da geringonça" opõe o António Costa ao Pedro Nuno Santos no PS e a mudança de caras do velho Jerónimo de Sousa pelo jovem Paulo Raimundo e no BE sai a Catarina Martins da liderança e entra a líder parlamentar Mariana Mortágua. Enquanto o teatrinho das mudanças de caras prossegue no campo da geringonça, tudo tem de mudar para ficar tudo na mesma. Como acontece desde 2015 a dinâmica da geringonça prossegue como um reforço do PS às custas do PCP e do BE.


As eleições burguesas vão ser uma polarização entre o falso anti-fascismo de uma geringonça dominada pelo PS e a formação de um governo com o partido fascista Chega (como acontece em vários países europeus, Itália, Suécia, Finlândia, Suíça, Hungria, Eslováquia, etc). Basicamente a propaganda burguesa vai centrar a disputa entre PS e Chega. Isto é do maior interesse quer para o PS, quer para o Chega.


A ascensão do Chega resulta da inexistência de oposição contra os governos burgueses e contra a social-democracia em Portugal. Os governos da geringonça e do PS e a completamente falsa oposição do PCP e do BE ao PS desde a maioria absoluta de 2022 reforçaram a NATO, apoiaram Zelensky de braço dado com os nazis do grupo Azov na Ucrânia e apoiaram o governo fascista sionista de Israel enquanto este comete o maior genocídio desde a Segunda Guerra Mundial em Gaza.


Quem aprova os orçamentos de Estado do PS, aprova também fundos que estão devotados à NATO, apoia uma máquina de Estado portuguesa que apoia activamente a NATO e a União Europeia - e isto inclui até acordos com Israel e com a Ucrânia.


Nas questões internacionais vemos mais nitidamente como a social-democracia do PS e os seus satélites PCP e BE na prática concreta dos governos centrados no PS que todos eles defendem são apoiantes e cúmplices directos de forças fascistas e de forças reaccionárias do imperialismo, como a NATO e a União Europeia. O palavreado retórico do PCP e do BE de aprovar orçamento de Estado do PS enquanto dizem ser contra a NATO, Israel e a Ucrânia (e se calhar o BE em alguns casos nem sequer essa retórica tem) é pura hipocrisia.


É claro que a política internacional e a política nacional dos partidos da geringonça são duas faces da mesma moeda. Prossegue a privatização da saúde, da educação, das empresas do Estado, a precarização dos contratos de trabalho, o elevado desemprego e pobreza que crescem, a destruição real dos salários pela inflação, o nível desumano das pensões de miséria, o crescimento avassalador do preço das casas, a exploração brutal e escravatura de imigrantes no turismo, na construção civil e na agricultura. Alguns hipócritas do PCP batem no peito contra o discurso racista do Chega mas na hora de exigir que os sindicatos liderados pelo PCP tenham alguma intervenção em defesa dos trabalhadores imigrantes escravizados o seu silêncio é total. A prática dos sindicatos da CGTP, quando já abandona os trabalhadores em geral, abandona ainda mais os imigrantes em particular. Seria necessário para começar a fazer uma verdadeira luta de classes contra o racismo e o fascismo fazer alguns comunicados dos sindicatos da CGTP nas línguas estrangeiras dos imigrantes recém-chegados em sectores da construção civil e agricultura. Mas isto, como qualquer acção de luta combativa, é contrário aos interesses de conciliação de classes dos dirigentes sindicais lambe-botas do PS que estão ligados ao PCP na CGTP.


Perguntamos quando foi a última greve geral em Portugal? Ainda se lembram? Podem crer que depois da geringonça as greves gerais não fazem parte dos planos da CGTP. Não é de estranhar que futuramente muitos dirigentes da CGTP que são quadros do PCP vão parar ao PS, afinal de contas o PCP limita-se a cumprir as ordens que o PS lhe dá em todas as grandes decisões da CGTP.


Com um governo do PS com muletas sociais-democratas ou com um governo de direita atrelado ao Chega a exploração e a miséria dos trabalhadores vai continuar a aumentar.


O voto dos marxistas-leninistas deve ser nulo, o voto dos trabalhadores combativos e do povo revoltado contra o capitalismo deve ser nulo. A prioridade necessária é a construção de um Partido Comunista verdadeiro e revolucionário em Portugal. Esse partido é a vanguarda revolucionária da classe operária e de todos os trabalhadores, é a única solução para superar esta miserável escolha entre carrascos dos trabalhadores e do povo.


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